As diversas possibilidades para a Brasília que poderia ter sido e não foi estão agora reunidas no livro O Concurso de Brasília: Sete Projetos para uma Capital (Cosac Naify), de Milton Braga, que apresenta e compara cada um dos sete premiados como primeiros colocados numa competição entre 26 propostas apresentadas, no Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil, promovido entre 1956 e 1957 pelo governo Juscelino Kubitschek. Todos tinham de atender à condição dada pelas regras do concurso de que a capital projetada tivesse no máximo cerca de 500 mil habitantes.
A leitura e a contemplação de plantas, maquetes e projeções convidam a dar asas à imaginação, mesmo a quem não tenha familiaridade com os conceitos do urbanismo e da arquitetura. Se o concurso tivesse sido vencido pela equipe do arquiteto Rino Levi, por exemplo, os edifícios de Oscar Niemeyer, como podem ser observados na foto ao lado, teriam de se espalhar por uma Brasília completamente diferente do que é. “Super blocos” de 300 metros de altura (com dois níveis de garagem no subsolo, térreo e 20 andares habitáveis) que dominariam a paisagem e concentrariam uma parte da população, em grupos, com cerca de 16 mil moradores.
O texto de Milton Braga observa: “Nesse ponto, a proposta da equipe de Rino Levi é a grande exceção, tendo optado (...) por uma verticalização radical, a fim de incorporar o cerrado no dia a dia da cidade”. A concentração de moradias, próximas ao centro urbano e administrativo, favoreceria o deslocamento a pé – nisso teríamos também uma Brasília oposta à que existe de fato e é famosa pela dificuldade que oferece à locomoção de pedestres.
De acordo com o Projeto original (foto ao lado) concebido pelo escritório dos irmãos M.M.M., Roberto perdeu para o de Lúcio Costa, inventor de Brasília, como todo mundo conhece.
Conforme apresentado em seu projeto, devido às curtas distâncias dentro de cada unidade, em seu interior, os automóveis são desnecessários para o transporte de pessoas. Pode-se chegar ao coração central de uma “Sub Brasília” numa caminhada de 15 minutos, mas mesmo assim um sistema de calçadas rolantes facilita o deslocamento dos pedestres. As unidades são delimitadas por parques e matas, e a comunicação entre elas é feita por pontos de ônibus e estações de metrô (ou melhor, monorail) localizadas no coração de cada “Sub Cidade”, todos ao nível do subsolo. O centro cívico, com a Praça dos Três Poderes, se espreme numa das margens do lago, ao lado do círculo mais central.
Projetada por Borouch Milman e equipe, a Brasília que ficou em segundo lugar teria a forma geral de um L e seria uma cidade toda construída às margens do Paranoá, com “o máximo de fachadas bem iluminadas voltadas para o lago, a fim de usufruírem o melhor cenário”. Cada zona residencial alternaria casas e edifícios, uns de três andares, outros de doze. As penínsulas do lago, hoje ocupadas por mansões, seriam exclusivas de edifícios de vinte pavimentos.
O projeto de Milton Ghiraldini e equipe foi imaginado como um conjunto de quatro retângulos dispostos em torno de uma zona central (onde ficariam centro governamental, ministérios, embaixadas, centro cultural e comercial), e se preocupava especialmente com o aspecto humano da cidade. Seriam construídas superquadras 15 a 20 vezes maiores que um quarteirão comum, que teriam parques internos correspondentes à metade de sua área total. Veredas ligariam os núcleos de cada superquadra às suas casas e às superquadras vizinhas, por passagens superiores ou inferiores às ruas principais – o trânsito de pedestres seria livre e totalmente independente do de automóveis.
Completam a lista de finalistas esmiuçados no livro os projetos de Vilanova Artigas e da dupla Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti.
No entanto, a Brasília de hoje, no auge dos seus 50 anos, está rodeada pelos bolsões de pobreza das cidades-satélite e soma cerca de 2,6 milhões de habitantes, segundo o IBGE. “A grande omissão do plano piloto vencedor parece ser a falta de considerações quanto ao crescimento futuro da cidade, ou à criação de novos núcleos urbanos”, afirma o texto de Braga. Em seguida, ele relativiza a questão: “No entanto, esse não parece ser um problema intrínseco ao projeto vencedor do concurso, e sim um fruto da ausência de planejamento continuado após a inauguração da cidade, e, principalmente, do aumento da pobreza brasileira nas últimas décadas. A precariedade urbana da periferia de Brasília não difere em nada das imensas periferias surgidas nas demais grandes cidades brasileiras a partir dos anos 1960”.
Além da recuperação dos projetos da Brasília que não existe hoje, a aventura de O Concurso de Brasília contempla uma introdução escrita por Guilherme Wisnik, que dá mais asas à imaginação ao documentar, por exemplo, que a mudança da capital do país era cogitada por governantes desde ao menos 1808. E que a capital até então hipotética foi batizada sucessivamente como Nova Lisboa (à época da mudança da corte portuguesa para o Brasil), Cidade Pedrália (na declaração da independência), Imperatória (durante o período imperial), Tiradentes (na proclamação da República) e Vera Cruz (sob o Estado Novo de Getúlio Vargas), antes de virar Brasília para sempre.

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